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A escolha do estabelecimento escolar e os projetos de futuro de jovens do Ensino Médio que moram em um pequeno distrito do interior

FICAR OU PARTIR?

A escolha do estabelecimento escolar e os projetos de futuro de jovens do Ensino Médio que moram em um pequeno distrito do interior.

Robson de Souza*

*Mestrando em Educação – UFOP

 

            Na transição do Ensino Fundamental para o Ensino Médio, muitos jovens vivenciam também a mudança de escola ou de espaço, modificando a estrutura de relações estabelecidas, distanciando de seus próximos e se aproximando de outros jovens, de outras espacialidades. Ocorre uma alteração significativa na vida deles, pois, residentes em pequenos distritos, são levados a migrar ou se deslocar cotidianamente de seu lugar de origem para continuar os estudos nas sedes dos municípios.

            Essa pesquisa foi desenvolvida no programa de Mestrado em Educação do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto, na área de concentração Desigualdades, Diversidades, Diferenças e Práticas Educativas Inclusivas (DsPEI) com orientação da professora Dr. Rosa Maria da Exaltação Coutrim.

            O objetivo geral da pesquisa foi analisar os fatores que levam os jovens a permanecerem estudando na escola de Ensino Médio presente no distrito ou se deslocarem para estudar num Instituto Federal, localizado na sede do município. Como objetivos específicos, a proposta foi investigar qual a importância atribuída à escola e à educação escolar na construção dos projetos de futuro, e verificar as lógicas socializadoras e estratégias de escolarização familiares presentes na escolha da escola.

            Seguindo a abordagem qualitativa, a pesquisa foi desenvolvida por meio da aplicação de questionário e entrevista semiestruturada com jovens do Ensino Médio moradores do distrito de Santo Antônio do Salto. Foram aplicados 29 questionários, o que nos possibilitou promover uma caracterização dos jovens e suas famílias, dividindo-os em dois grupos: os que estudam no segundo endereço da Escola Estadual José Leandro, localizada no distrito e os que estudam no Instituto Federal de Minas campus Ouro Preto, localizado na sede do município. A partir dos dados dos questionários, foram escolhidos seis jovens para a realização das entrevistas. Construímos os perfis dos jovens entrevistados destacando as práticas educativas familiares, a socialização, a escolha da escola do Ensino Médio e os projetos de futuro.

            Verificamos que os fatores de permanência ou de deslocamento perpassam diferentes situações da vida dos jovens, estando presentes na socialização, na educação escolar e no uso das mídias proporcionadas pela globalização; e que as práticas educativas familiares e as redes de sociabilidade são importantes para a compreensão da escolha desses jovens.

            A pesquisa nos mostrou a inexistência de diferenças entre os projetos de futuro nos grupos pesquisados, ou seja, os projetos não são mais definidos em uma escola do que em outra. Nos dois grupos percebemos planos para continuar estudando e as carreiras escolhidas também não são diferentes. Todos os alunos da pesquisa consideram o Instituto Federal melhor que a escola do distrito, e ressaltaram a influência dos pais na vida escolar. O deslocamento entre a sede e o distrito está intrínseco ao ato de escolha da escola, o que promove o contato com outro espaço e consequentemente outras relações sociais.

            O Instituto Federal está no imaginário dos jovens do distrito e o deslocamento para a sede é visto como mais interessante e vantajoso do que a permanência na escola do distrito, mesmo que os estudantes tenham que se matricular nos cursos para os quais reconhecidamente não têm afinidade ou tenham que perder um ano da vida escolar ao serem aprovados no exame de seleção.

             Precisamos sinalizar que essa pesquisa contribui para a construção do conhecimento na área da Educação, evidenciando situações específicas a respeito da escolha do estabelecimento escolar pelos jovens moradores de pequenos distritos do interior e, ainda, corrobora com a reflexão sobre o papel da escola e da família na construção dos projetos de futuro dos jovens. No entanto, esse estudo não esgota as possibilidades de compreensão sobre a temática e sinaliza a importância de pesquisas em Educação no interior do Brasil.

Esperamos que essa pesquisa traga fôlego para iniciativas que tentem retratar a questão da construção dos projetos de vida e das escolhas dos estabelecimentos escolares de jovens de camadas populares no interior do Brasil, discutindo as diferenças espaciais/territoriais, a questão de raça e gênero, bem como as políticas públicas voltadas à educação em áreas rurais ou do interior.

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